Nosso Quintal

nosso quintal

o silêncio solar das manhãs
e a magia cantada da nossa felicidade,
recordas mãe o riso aberto
das crianças na paz do nosso quintal?,
a luz filtrada pelos pessegueiros
e a luz maior e muito mais limpa do olhar,
recordas mãe a segurança
calada dos nossos abraços distantes?,
as minhas irmãs meninas, o
meu pai, o teu rosto pequeno, menina,
recordas mãe os domingos
com gasosa e uma galinha depenada?,
a tua cadela sem raça a guardar-nos
e a dormir quieta aos nossos pés,
recordas mãe como morreu
como acabaram os domingos e as manhãs
para nunca mais ser domingo
ou manhã no silêncio do nosso quintal?

José Luís Peixoto, em “A criança em ruínas”.
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Pedrazul Editora

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“Não é esplêndido pensar em todas as coisas que existem para serem descobertas? Ninguém jamais é muito velho para sonhar. E os sonhos nunca envelhecem”. Anne Shirley ♥

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Um olhar nas peculiaridades…

um olhar nas peculiaridades

“Quem é apaixonado por viagens procura algo mais. O quê? Algo deve mudar a gente, algo inefável – ou nada acontece. Muda-se, escereve Ed num poema. Torne-me algo que sou. A mudança – a experiência transformadora – faz parte da busca nas viagens”.
Frances Mayes, Bella Toscana.
Porto, maio de 2014.

 

 

Mundo Pequeno – Manoel de Barros

mundo pequeno manoel de barros

“O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino
e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão
comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa.
Ele me rã.
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua
flauta para inverter
os ocasos.”

Poetas

poetas

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:
viajam nas nuvens,
correm nas águas,
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis,
desde que se olha para o céu.

A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos,
no largo círculo dos dias sossegados.

Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:

formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.

Cecília Meireles, Os dias felizes.

Narrativas de um olhar

narrativas de um olhar

Ela olhava o reflexo do mundo através da janela. Amornava as horas e tecia saudades antigas. Descortinava janelas quebradas, vidros embaçados. Telhados envelhecidos, uma casinha de aranha.

Enveredava na ausência de sonhos esquecidos.  Um olhar em outros horizontes… Acalentava o pingo choroso de saudosa lembrança, mas era dia.

Sentia o sussurrar do vento, vozes abafadas, barulho de passos na calçada. Paredes envelhecidas abundavam em saudade.  Seu mundo? Escuta tudo sem nada ouvir. Enxerga tudo sem nada sentir. Esquecia-se da tristeza que morava na fresta de um olhar.