Poetas

poetas

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:
viajam nas nuvens,
correm nas águas,
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis,
desde que se olha para o céu.

A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos,
no largo círculo dos dias sossegados.

Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:

formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.

Cecília Meireles, Os dias felizes.

Almas de Porcelana

livro almas de porcelanas

Do forno ao desejo
simétricas
almas
de porcelana

É  a linha
exterior
que revela
mais que qualquer
configuração
no centro
dos azulejos

Um em si
não cabe
de quebrado
tão pequeno

Daí galgar
de costas para o chão
onde nasce
em forma de mulher
fecundos cacos de gume e
verniz.
Gociante Patissa 

Espera

espera

Sempre existe algo para esperar… Espera-se que a noite acabe e o sol volte a brilhar. Espera-se que a tormenta termine e reine a paz. Que o amanhã seja diferente. Espera-se que a tristeza se transforme em alegria. Espera-se que a dor diminua com o tempo. Espera-se que a ausência seja o relógio do destino marcando a hora do reencontro. Espera-se hoje, amanhã… O futuro é o respirar de mais uma espera.